Wanderson Soares da Silva é a prova viva de que às vezes
Deus pode escrever certo por linhas tortas. Houve um dia em que o seminarista
do Mosteiro de São Bento, no Rio, formado em filosofia, aprendeu que a fé pode,
sim, mover montanhas. Qualquer tipo de montanha. Em vez de batina, macacão.
A Refinaria de Manguinhos vai comprar óleo de cozinha usado
para fazer combustível. E a Coordenação dos Programas de Pós-Graduação de
Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe-UFRJ) está
organizando as cooperativas de catadores para recolher o óleo velho que é
jogado fora pelo ralo. A turma de Wanderson não perdeu tempo.
"Hoje eu sou catador", revela Wanderson.
O ex-seminarista busca agora outro rebanho. Usa o que sabe
para tentar melhorar a vida de quem precisa. Ele garante que é uma pessoa cheia
de boas intenções, mas isso não suficiente para fazer uma cooperativa.
As páginas vazias do livro contábil são o testemunho de um
fracasso: 945 nomes e nenhum lucro. A primeira tentativa de montar uma
cooperativa de catadores esbarrou no erro mais comum.
"Não tinha a questão de nós sentarmos e conversarmos.
Eu era o chefe. Eu era o cacique de uma grande tribo", conta Wanderson.
Na verdade, era uma pequena empresa, onde não havia
participação. Wanderson pagava os catadores. Wanderson negociava. Não era uma
cooperativa de verdade. Eles não conseguiram encontrar lugar no mercado. Nestes
dez anos, ele aprendeu a lição de que várias cabeças pensam melhor do que uma.
"Várias pessoas dando suas idéias, comungando de um
ideal, discutindo o caminho, onde e como se deve chegar, é a melhor forma de se
criar uma cooperativa hoje", aconselha Wanderson.
Wanderson se deu conta a tempo de que só estava usando a
mão-de-obra dos companheiros e resolveu mudar. Na nova cooperativa, o número de
sócios caiu para 35. Ganham, em média, R$ 300 por mês. O café da manhã, que
antes ele dava, agora é comprado com o dinheiro de todos.
"Temos que nos organizar, porque quando esse dinheiro
acabar, não tem café. E o café desse jeito tem outro gosto porque se torna um
café solidário. Se torna real, não é uma coisa imposta. É um trabalho livre, as
pessoas não se tornam mais escravas", ressalta Wanderson.
Numa reunião, eles decidiram como vão se organizar para
recolher óleo de cozinha na região. É a nova fonte de renda da cooperativa.
Decidiram primeiro explicar que o óleo usado tem um grande valor.
A Refinaria de Manguinhos vai comprar óleo de cozinha usado
para fazer combustível. E a Coordenação dos Programas de Pós-Graduação de
Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe-UFRJ) está
organizando as cooperativas de catadores para recolher o óleo velho que é
jogado fora pelo ralo. A turma de Wanderson não perdeu tempo.
"O óleo estava na casa de alguém. O resultado é o
combustível do futuro: o biodiesel", diz Wanderson.
A universidade aproveita para ensinar a quem precisa.
"O grande erro é achar que a cooperativa é um fim. Querer montar uma
cooperativa é errado. Você quer um trabalho, e a cooperativa é meio. Então,
você tem que ter clareza de que a cooperativa é a forma de produzir aquilo que
você quer vender", esclarece o coordenador da Incubadora de Cooperativas
da UFRJ, Gonçalo Guimarães.
A união de pessoas em torno de um ideal, em torno do esforço
conjunto que faz uma cooperativa funcionar, dá ao grupo a mesma chance que
empresas têm de abrir novos mercados. É nesse momento que acontece o milagre da
multiplicação das vagas. Juntos, os trabalhadores organizados conseguem criar
oportunidades, oferecer novos produtos e serviços, igualzinho aos grandes
empreendedores. O resultado disso? Quem antes não conseguia encontrar trabalho
agora pode conseguir a tão sonhada vaga com a força da cooperativa.
"Ela cria a vaga porque está realizando uma atividade
econômica direta. A vaga não existia", diz o procurador do Trabalho
Rodrigo Carelli.
Mas nem sempre é assim. Na mesa do procurador de Justiça,
histórias de quadrilhas especializadas em ocupar vagas de trabalho fazendo
sumir os benefícios sociais. São as cooperativas de fachada, que vendem
mão-de-obra barata até para o estado. Segundo os investigadores, um golpe cada
vez mais comum, criado para burlar leis trabalhistas e concursos públicos e que
é fácil de ser identificado.
"A primeira coisa que a pessoa tem que ver é se ela
está trabalhando para um patrão. A partir do momento que ela constatar que está
trabalhando para um patrão e que a cooperativa não está sendo gerida de forma
democrática, tem que buscar os órgãos defensores", aconselha Rodrigo
Carelli.
A animada catadora Ângela Alvim é como se fosse o farol da
cooperativa de catadores de São João de Meriti, na Região Metropolitana do Rio
de Janeiro. Bastou espalhar nas redondezas a notícia de que dava para ganhar
dinheiro com o óleo velho de cozinha para a casa dela se transformar num ponto
de referência.
O espírito da cooperativa está espalhado na região. Até quem
não é da cooperativa ajuda. Trabalhar assim parece fácil.
"Nós saímos para coletar óleo, mas geralmente voltamos
para casa com garrafas PET, jornal e vidro também", conta dona Ângela.
Gotas de óleo escorrendo parecem pouco. Mas elas vêem e
ouvem diferente. "Cada gota significa R$ 1", diz dona Ângela.
No depósito, todos aprendem a lição. "Isso aqui não é
um espaço bonito, onde você chega, senta e vai tomar um cafezinho, bater papo.
Aqui não tem isso. Se você quiser, tem que fazer calinho na mãozinha para pegar
seu dinheirinho e dizer: 'Este é o melhor dinheiro que eu já ganhei na minha
vida'. É suado mesmo. Aqui está o espírito da cooperativa (aponta os calos nas
mãos de um cooperado). Sem estas mãozinhas aqui, meu irmão, a gente não chega a
lugar nenhum", conclui dona Ângela.

Nenhum comentário:
Postar um comentário