sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Lucro de gota em gota

 Wanderson Soares da Silva é a prova viva de que às vezes Deus pode escrever certo por linhas tortas. Houve um dia em que o seminarista do Mosteiro de São Bento, no Rio, formado em filosofia, aprendeu que a fé pode, sim, mover montanhas. Qualquer tipo de montanha. Em vez de batina, macacão.
"Hoje eu sou catador", revela Wanderson.

O ex-seminarista busca agora outro rebanho. Usa o que sabe para tentar melhorar a vida de quem precisa. Ele garante que é uma pessoa cheia de boas intenções, mas isso não suficiente para fazer uma cooperativa.

As páginas vazias do livro contábil são o testemunho de um fracasso: 945 nomes e nenhum lucro. A primeira tentativa de montar uma cooperativa de catadores esbarrou no erro mais comum.

"Não tinha a questão de nós sentarmos e conversarmos. Eu era o chefe. Eu era o cacique de uma grande tribo", conta Wanderson.

Na verdade, era uma pequena empresa, onde não havia participação. Wanderson pagava os catadores. Wanderson negociava. Não era uma cooperativa de verdade. Eles não conseguiram encontrar lugar no mercado. Nestes dez anos, ele aprendeu a lição de que várias cabeças pensam melhor do que uma.

"Várias pessoas dando suas idéias, comungando de um ideal, discutindo o caminho, onde e como se deve chegar, é a melhor forma de se criar uma cooperativa hoje", aconselha Wanderson.

Wanderson se deu conta a tempo de que só estava usando a mão-de-obra dos companheiros e resolveu mudar. Na nova cooperativa, o número de sócios caiu para 35. Ganham, em média, R$ 300 por mês. O café da manhã, que antes ele dava, agora é comprado com o dinheiro de todos.

"Temos que nos organizar, porque quando esse dinheiro acabar, não tem café. E o café desse jeito tem outro gosto porque se torna um café solidário. Se torna real, não é uma coisa imposta. É um trabalho livre, as pessoas não se tornam mais escravas", ressalta Wanderson.

Numa reunião, eles decidiram como vão se organizar para recolher óleo de cozinha na região. É a nova fonte de renda da cooperativa. Decidiram primeiro explicar que o óleo usado tem um grande valor.
            
A Refinaria de Manguinhos vai comprar óleo de cozinha usado para fazer combustível. E a Coordenação dos Programas de Pós-Graduação de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe-UFRJ) está organizando as cooperativas de catadores para recolher o óleo velho que é jogado fora pelo ralo. A turma de Wanderson não perdeu tempo.
"O óleo estava na casa de alguém. O resultado é o combustível do futuro: o biodiesel", diz Wanderson.

A universidade aproveita para ensinar a quem precisa. "O grande erro é achar que a cooperativa é um fim. Querer montar uma cooperativa é errado. Você quer um trabalho, e a cooperativa é meio. Então, você tem que ter clareza de que a cooperativa é a forma de produzir aquilo que você quer vender", esclarece o coordenador da Incubadora de Cooperativas da UFRJ, Gonçalo Guimarães.

A união de pessoas em torno de um ideal, em torno do esforço conjunto que faz uma cooperativa funcionar, dá ao grupo a mesma chance que empresas têm de abrir novos mercados. É nesse momento que acontece o milagre da multiplicação das vagas. Juntos, os trabalhadores organizados conseguem criar oportunidades, oferecer novos produtos e serviços, igualzinho aos grandes empreendedores. O resultado disso? Quem antes não conseguia encontrar trabalho agora pode conseguir a tão sonhada vaga com a força da cooperativa.

"Ela cria a vaga porque está realizando uma atividade econômica direta. A vaga não existia", diz o procurador do Trabalho Rodrigo Carelli.

Mas nem sempre é assim. Na mesa do procurador de Justiça, histórias de quadrilhas especializadas em ocupar vagas de trabalho fazendo sumir os benefícios sociais. São as cooperativas de fachada, que vendem mão-de-obra barata até para o estado. Segundo os investigadores, um golpe cada vez mais comum, criado para burlar leis trabalhistas e concursos públicos e que é fácil de ser identificado.

"A primeira coisa que a pessoa tem que ver é se ela está trabalhando para um patrão. A partir do momento que ela constatar que está trabalhando para um patrão e que a cooperativa não está sendo gerida de forma democrática, tem que buscar os órgãos defensores", aconselha Rodrigo Carelli.

A animada catadora Ângela Alvim é como se fosse o farol da cooperativa de catadores de São João de Meriti, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Bastou espalhar nas redondezas a notícia de que dava para ganhar dinheiro com o óleo velho de cozinha para a casa dela se transformar num ponto de referência.

O espírito da cooperativa está espalhado na região. Até quem não é da cooperativa ajuda. Trabalhar assim parece fácil.

"Nós saímos para coletar óleo, mas geralmente voltamos para casa com garrafas PET, jornal e vidro também", conta dona Ângela.

Gotas de óleo escorrendo parecem pouco. Mas elas vêem e ouvem diferente. "Cada gota significa R$ 1", diz dona Ângela.


No depósito, todos aprendem a lição. "Isso aqui não é um espaço bonito, onde você chega, senta e vai tomar um cafezinho, bater papo. Aqui não tem isso. Se você quiser, tem que fazer calinho na mãozinha para pegar seu dinheirinho e dizer: 'Este é o melhor dinheiro que eu já ganhei na minha vida'. É suado mesmo. Aqui está o espírito da cooperativa (aponta os calos nas mãos de um cooperado). Sem estas mãozinhas aqui, meu irmão, a gente não chega a lugar nenhum", conclui dona Ângela.

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